Deficiência auditiva: como os médicos podem melhorar o atendimento aos pacientes

Medicina

Por Redação Secad   | 

Cerca de 5% dos brasileiros são deficientes auditivos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). Essa fração da população enfrenta dificuldades para utilizar serviços básicos da rotina de qualquer cidadão. A principal é a falta de meios não verbais de comunicação no atendimento à saúde. São raros os profissionais da área, incluindo médicos, que sabem se comunicar utilizando a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

A deficiência auditiva é definida pela Política Nacional de Saúde da Pessoa Portadora de Deficiência (PNSPPD) como a perda de audição em 41 decibéis ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz e 3.000 Hz. Pode ser bilateral, parcial ou total e ocorre em três níveis:

  • Leve/moderada: até 70 decibéis;
  • Severa: 70 a 90 decibéis;
  • Profunda: acima dos 90 decibéis.

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Dificuldades no atendimento de deficientes auditivos

Apesar da existência da Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva (PNASA) e da PNSPPD, as ferramentas usadas na comunicação com os deficientes auditivos costumam partir de iniciativas individuais dos profissionais – e não do poder público. É o que afirma uma revisão bibliográfica publicada em 2019 nos Anais da 22ª Semana de Mobilização Científica da Universidade Católica de Salvador (Ucsal).

O artigo indica como principais barreiras a falta de capacitação dos profissionais em Libras e a ausência de intérpretes da língua e de insumos tecnológicos. Neste último caso, até mesmo quando estão disponíveis (como eventualmente é o caso da telemedicina), há dificuldades linguísticas e problemas de conexão.

Segundo uma monografia publicada em 2017 pela Universidade Federal do Pará (UFPA), os deficientes auditivos enfrentam problemas que vão além da dificuldade de comunicação com o médico. São eles:

  • Constrangimento na presença de um intérprete por temerem que questões sigilosas sejam compartilhadas com a comunidade surda;
  • Falta de compreensão da receita médica e medo de tomar as medicações indicadas, o que pode levar à não adesão ao tratamento.

Falta de informação em saúde

Os deficientes auditivos, como qualquer outro público, precisam ter acesso a informações básicas sobre saúde. Isto é, a formas de prevenir infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e doenças como a Covid-19, por exemplo. Entretanto, são frequentemente excluídos dos sistemas de mídia por terem a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como língua oficial. Nesse contexto, é essencial a disponibilização de materiais adaptados à língua, como fez a Federação Mundial de Surdos durante a pandemia com a Língua de Sinais Americana – porém, não há tradução do documento para a brasileira.

A organização recomenda que profissionais da saúde tenham pelo menos conhecimento básico em Libras, a fim de promoverem uma comunicação adequada com pacientes com deficiência auditiva. Além disso, fornece orientações sobre como oferecer informações a esse público.

Já os deficientes auditivos oralizados são prejudicados pelo uso de máscaras faciais durante a pandemia, pois a leitura labial é impedida. Assim, os médicos têm ainda mais dificuldade de comunicação com o paciente.

Estratégias de atendimento de deficientes auditivos e surdos

O ensino de Libras é obrigatório apenas em licenciaturas. Por isso, a maioria dos médicos não tem contato com a língua durante sua formação, e muitos não buscam capacitação. Porém, considerando a premissa de que a saúde deve ser acessível a todos, como determina a Constituição Federal e a PNASA, esse conhecimento não deveria ser considerado um diferencial, mas sim uma necessidade, ainda mais em um contexto onde a presença de um intérprete pode causar constrangimentos ao paciente.

Nos casos em que não é possível a comunicação em Libras, algumas estratégias podem ser utilizadas:

  • Escrita/ilustração, caso o paciente possua domínio da Língua Portuguesa;
  • Leitura labial, quando o deficiente auditivo for capaz de realizá-la e não existirem barreiras, como as máscaras.

Médicos e outros profissionais da saúde também utilizam a mímica, técnica considerada ineficaz. Existe, ainda, a opção de utilizar aplicativos de celular. Uma pesquisa publicada em 2021 na Revista Brasileira em Tecnologia da Informação identificou 20 softwares de tecnologias assistivas que podem facilitar a comunicação no atendimento de deficientes auditivos em hospitais. São exemplos o Hand Talk, FLIBRAS e Erlenen.

Além disso, é importante compreender e respeitar a comunidade de deficientes auditivos. Um pensamento equivocado, mas muito comum, é o de que intérpretes dão voz a este público. Para evitar reproduzir ideias como essa – que podem ser classificadas como preconceituosas e ofender o paciente –, urge a necessidade de buscar conhecimento acerca das especificidades da população.

A acessibilidade também deve ser considerada no planejamento de campanhas de conscientização sobre vacinação e profilaxia de doenças. Assim, a Libras precisa estar inserida nas mais diversas plataformas de veiculação de informações sobre saúde

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