Irritabilidade no adulto: diferenças entre transtorno bipolar e transtorno explosivo intermitente

Medicina

Por Mariana Dias Curra Raupp   | 

Como citar este artigo: Raupp, M.D.C. & Salum Jr., G.A. (2022, 3 mai.). Irritabilidade no adulto: diferenças entre transtorno bipolar e transtorno explosivo intermitente. Blog Artmed. https://blog.artmed.com.br/medicina/diferencas-transtorno-bipolar-transtorno-explosivo-intermitente

A irritabilidade é um traço que representa uma propensão a experimentar raiva em resposta à frustração. Ou seja, esse sintoma não representa um sentimento ou um comportamento em si, mas um aumento da chance de experimentar emoções e comportamentos específicos.

Quando uma pessoa está irritada, os estímulos têm uma probabilidade maior de elicitar raiva e comportamentos agressivos. Esses estímulos podem ser internos, como fome ou sono, ou podem ser externos, como problemas de relacionamento ou dificuldades no trabalho.

Em função de a irritabilidade ser tipicamente desagradável para quem a experiencia e para aqueles com quem convive, e por causar impacto significativo nas relações interpessoais e na funcionalidade do dia a dia, é frequentemente uma queixa principal entre os pacientes com condições mentais que buscam atendimento.

Sendo assim, é importante poder distinguir entre os diferentes tipos de irritabilidade que podem estar presentes nos transtornos mentais, como é o caso do transtorno bipolar e do transtorno explosivo intermitente.

A irritabilidade no transtorno bipolar

No transtorno bipolar, a irritabilidade está classicamente relacionada aos episódios maníacos e hipomaníacos, que ocorrem de maneira episódica, significando que houve uma mudança no humor do paciente, com surgimento de irritabilidade que antes não lhe era característica ou um aumento significativo na irritabilidade basal de um paciente que já é irritado cronicamente.

Nos episódios de polo maníaco, o humor frequentemente está elevado: alegre, despreocupado, otimista, e acompanhado de um aumento da autoestima que pode variar desde uma autoconfiança sem crítica até uma grandiosidade delirante. Quando este humor, além de elevado, está também irritável, pequenos estímulos podem causar mudanças bruscas de comportamento, gerando agressividade.

Um desencadeante comum para a raiva, nesses casos, é o desinteresse, a negação de desejos ou a repreensão de terceiros ao humor expansivo e demandante do indivíduo, que frequentemente fala demais, por vezes juntando ideias pouco relacionadas entre si, e mostra-se excessivamente entusiasmado por interações interpessoais e inclinado a envolver-se sem pesar consequências em atividades desfavoráveis, como surtos de compras e indiscrições sexuais. Outro fator que pode aumentar a irritabilidade do quadro é o uso concomitante de substâncias, desde estimulantes, como cafeína, até medicamentos antidepressivos ou drogas de abuso.

É importante lembrar que essas alterações de humor, apesar de episódicas, precisam ser persistentes, isto é, presentes na maior parte dos dias, quase todos os dias, com duração mínima de uma semana (ou necessidade de hospitalização) para mania e de quatro dias consecutivos para hipomania.

Além disso, em pessoas com transtorno bipolar, a irritabilidade precisa estar acompanhada de aumento da atividade ou da energia, que se traduzem em sintomas de redução da necessidade de sono (diferentemente da insônia, há sensação de descanso com poucas horas de sono) e aumento da atividade dirigida a objetivos (socialmente, no trabalho, escola, sexualmente…) ou agitação psicomotora (atividade sem propósito, não dirigida a objetivos).

Os episódios depressivos do transtorno bipolar também podem estar associados a um aumento da irritabilidade (assim como os episódios depressivos do transtorno depressivo maior, cabe sublinhar), especialmente nos indivíduos com transtorno bipolar tipo II, onde sintomas mistos são mais comuns, e o indivíduo pode experimentar uma hipomania que caracteriza como depressão com aumento de energia ou irritabilidade.

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A irritabilidade no transtorno explosivo intermitente

O transtorno explosivo intermitente é um transtorno de controle de impulsos marcado pela dificuldade crônica de controlar a raiva, que é expressada através de explosões recorrentes de agressividade verbal ou física.

As explosões costumam ter início súbito (sem aviso) e duração curta (em geral, menos de 30 minutos), e costumam ocorrer em resposta a uma frustração, frequentemente uma provocação mínima de outra pessoa.

A característica básica do transtorno explosivo intermitente é a incapacidade de controlar comportamentos agressivos impulsivos em resposta a provocações vivenciadas subjetivamente que em geral não resultariam em explosões agressivas. A violência praticada tem uma característica impulsiva, e não premeditada, e está associada a sofrimento significativo para o portador do transtorno ou a prejuízos na função psicossocial.

É frequente que episódios de agressividade menos graves estejam alternados com episódios mais graves e destrutivos. Para atender aos critérios diagnósticos do transtorno, esses episódios menos graves, que não causam dano, destruição ou lesões, precisam ser frequentes e constantes (i.e., duas vezes por semana em média, por um período de três meses), enquanto as explosões de agressividade mais violentas podem ser menos frequentes (i.e., três no período de um ano).

É importante lembrar que o diagnóstico desse transtorno só deve ser feito em indivíduos cujos sintomas não sejam mais bem explicados por outro transtorno mental ou atribuíveis a outra condição médica ou a efeitos fisiológicos de uma substância.

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Implicações para o tratamento

Transtorno Bipolar

No transtorno bipolar, o tratamento da irritabilidade associada aos episódios de polo maníaco ocorre em conjunto com o tratamento usual da mania ou hipomania, sendo importante, adicionalmente, descontinuar agentes que podem piorar ou prolongar os sintomas, como antidepressivos e estimulantes.

Os antidepressivos não devem ser utilizados como monoterapia em pacientes com depressão bipolar com irritabilidade, uma vez que os ensaios clínicos não suportam a sua eficácia e há preocupações com a sua segurança em termos de riscos de viradas de humor. Nesses casos, estão mais bem indicados os antipsicóticos atípicos e os estabilizadores de humor.

Os inibidores seletivos da recaptação da serotonina e a bupropiona podem ser úteis como adjuvantes no tratamento da depressão bipolar, sendo a fluoxetina combinada à olanzapina uma combinação clássica.

Transtorno explosivo intermitente

No transtorno explosivo intermitente, o tratamento preferencial da irritabilidade é realizado por meio de terapia combinada de medicamento e psicoterapia.

Do ponto de vista farmacológico, os inibidores seletivos da recaptação da serotonina são a primeira linha de tratamento, sendo a fluoxetina a preferida por ter sido mais estudada para este propósito. É sugerido fazer uso de ao menos 6 a 12 semanas de tratamento antes de definir se o medicamento é benéfico, e é esperado que em torno de 66% dos pacientes respondam ao tratamento.

Do ponto de vista de psicoterapia, está bem documentado que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) pode ser eficaz em reduzir o comportamento agressivo impulsivo. Ela ensina os pacientes a antecipar e melhor manejar os estímulos do dia a dia que podem desencadear explosões de raiva, e está bem indicada em pacientes motivados para a mudança. Algumas técnicas utilizadas em TCC são a reestruturação cognitiva, treinamentos de relaxamento, treinamentos de habilidades e prevenção de recaída.

Adicionalmente à terapia combinada e conforme o perfil de cada paciente, deve ser orientado evitar o uso de álcool e de outras substâncias que podem aumentar o risco de comportamento violento.

 

Editoria de Psiquiatria

Editor-chefe: Giovanni Salum Jr.

Médico com doutorado e pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com período sanduíche no National Institute of Mental Health (NIMH). Atuou como Coordenador da Saúde Mental do município de Porto Alegre entre 2017 e 2019. Professor do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da UFRGS. Diretor da Seção de Afetos Negativos e Processos Sociais do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

 

Referências:

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