Monkeypox ou varíola dos macacos: as 5 informações que todo médico precisa saber

Medicina

Por Laura Hastenteufel   | 

Como citar este artigo: Hastenteufel, L.C.T. & Rados, D. R. V. (2022, 20 jun.). Monkeypox ou varíola dos macacos: as 5 informações que todo médico precisa saber. Blog Artmed. https://blog.artmed.com.br/medicina/monkeypox-variola-dos-macacos

Enquanto a humanidade tenta se recuperar de uma das maiores pandemias da história (vinda de uma zoonose viral) (1), é esperado que a identificação de “novas” doenças infecciosas gere apreensão (2). Com isso, surtos recentes de monkeypox (antigamente chamado de varíola dos macacos*) sem nexo epidemiológico com áreas endêmicas que estão acontecendo em múltiplos países (principalmente na Europa) ganharam destaque. Esse evento é considerado atípico pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere transmissão não detectada já há algum tempo e que possa haver eventos amplificadores associados (3). Segundo a OMS, o foco atual deve ser informar a população, limitar a disseminação e proteger profissionais da saúde (3).

Ao contrário da varíola, que foi oficialmente erradicada há mais de 40 anos, a varíola dos macacos segue tendo novos casos desde sua descrição em seres humanos em 1970, na República Democrática do Congo (4). Seu nome deriva da descoberta do vírus em macacos de testes na Dinamarca em 1958 (3), mas o principal reservatório do vírus parece ser roedores africanos (4). Até o momento, há 3 casos confirmados no Brasil (5). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) já emitiu nota técnica orientado os profissionais e serviços de saúde quanto aos cuidados com casos suspeitos e confirmados (6). O risco de uma nova pandemia não está descartado, mas é considerado baixo (7). Veja aqui 5 perguntas (e respostas) sobre essa doença.

*o nome monkeypox é o recomendado pelo Ministério da Saúde (em vez de varíola dos macacos) para evitar ações e agressões aos animais, que não têm relação com o surto atual.

Como a doença se apresenta?

Trata-se de uma doença com quadro clínico semelhante ao da varíola, porém mais leve. Sintomas constitucionais como febre, cefaleia, mialgias, fadiga e dor lombar costumam estar presentes no início do quadro. Após 1-3 dias do surgimento da febre, nota-se erupção cutânea (rash) inicialmente na face, com posterior espalhamento por outras partes do corpo (4). As lesões seguem um padrão uniforme de evolução na seguinte ordem:

  1. máculas;
  2. pápulas;
  3. vesículas;
  4. pústulas;
  5. crostas.

O quadro todo dura até 4 semanas e uma das principais diferenciações da monkeypox em relação a varíola é a presença de linfonodos aumentados. Em casos graves (pacientes imunossuprimidos), pode haver a perda de grandes extensões de pele. Os casos dos surtos atuais apresentam mais lesões em áreas genitais e têm preponderância em homens que fazem sexo com homens (5). Esse é um ponto importante, pois a doença tem se apresentado em ambulatórios de atenção primária, clínicas para doenças sexualmente transmissíveis e dermatológicas, além de emergências (3).

A taxa de mortalidade é altamente variável. Nos surtos atuais (fora de países endêmicos), nenhuma morte foi relatada. Considerando os dados de países africanos, existem duas clades (uma subdivisão filgênica) com mortalidade que varia entre entre 1% (clade da África ocidental) e 3-10% (clade da bacia do rio Congo); nos últimos anos, mortes foram reportadas em crianças e pacientes imunossuprimidos (3).

Quando suspeitar de monkeypox e qual a definição de caso suspeito?

O Ministério da Saúde do Brasil, por meio de sua Secretaria de Vigilância em Saúde, realizou definições de caso suspeito, provável, confirmado e descartado (vide Box 1). São considerados suspeitos pacientes que tenham quadro de febre, linfonodos aumentados e rash papulovesicular de evolução uniforme de instalação aguda. Para ser caso suspeito, o quadro deve ter iniciado após 15/03/2022 e deve-se descartar diagnósticos diferenciais como varicela, zoster, sífilis, arboviroses, entre outros (5).

Box 1. Definições de caso de acordo com o Ministério da Saúde brasileiro. Adaptado de (5).

Vínculo epidemiológico ou viagem para país com casos ativos transforma o caso suspeito em caso provável. Por fim, são considerados casos confirmados aqueles com identificação do material genético do vírus por teste de polymerase chain reaction em material da vesícula ou crosta. A investigação laboratorial é realizada nos laboratórios centrais – LACENs (Box 2). Destaca-se que o sangue não é bom material para investigação do vírus (5).

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Estou com um paciente suspeito. Como proceder?

O primeiro passo é iniciar o isolamento protetor do paciente e realizar a adequada utilização de material de proteção individual. Minimizar o número de profissionais e contato com o paciente também é importante.

O MS recomenda como nível preferencial de atendimento a atenção primária, mas o médico deve estar atento a sinais de gravidade (sepse, insuficiência respiratória e encefalite) e necessidade de internação (5). O isolamento deve durar até a queda de todas as crostas (fim do período infeccioso) (6).

Uma das principais responsabilidades do profissional atendendo casos suspeitos é (5):

  1. notificar as autoridades sanitárias dentro de 24 horas por algum dos canais do Ministério da Saúde;
  2. realizar a coleta de material para confirmação diagnóstica de acordo com as orientações do LACEN.

Para uma adequada interpretação dos resultados, é importante coletar informações sobre o dia de início da febre, do rash, da coleta de material e da situação do rash no momento da coleta.

Coleta de material para diagnóstico laboratorial

  • secreção da vesícula: swab de dacron ou poliéster. Armazenar em tubo seco. Punção com seringa (material com melhor rendimento) é alternativa;
  • crosta: raspado ou fragmento. Dar preferência a crostas menos secas e armazenar em frascos limpos sem material preservante;
  • sangue: 10 mL;
  • urina: 15 mL;
  • secreção respiratória: 2 coletas de nasofaringe + 1 coleta de orofaringe.

Para o armazenamento, todos os materiais devem ser mantidos congelados a -20°C (ou temperaturas inferiores), preferencialmente, por 1 mês ou até mais. Na ausência de freezers, pode-se manter em geladeira (4 °C) por até 7 dias. Este deve ser feito para chegada em no máximo 48 horas para transporte apenas com gelo-pack. Caso contrário, enviar congelado.

Notificação de casos ao Ministério da Saúde

Os canais de notificação ao MS são:

Para informações adicionais, o site do MS fornece um e-mail de contato: ssmonkeypox@saude.gov.br.

Qual a forma de contágio e como limitar a disseminação?

O contágio se dá por contato com materiais biológicos contaminados: sangue, secreções (inclusive respiratórias – gotículas) e lesões de pele. O período infeccioso dura do início dos sintomas até a resolução de todas as crostas.

Medidas de precaução com casos suspeitos incluem as medidas padrão, de contato e de gotículas (uso de máscaras, luvas, avental descartável, protetor facial ou óculos e quarto privativo) (6). Além disso, as lesões de pele em áreas expostas devem ser protegidas por lençol, vestimentas ou avental com mangas longas (5). Em casos de pacientes submetidos a procedimentos geradores de aerossóis, deve-se adicionar o uso de máscara PFF2 aos profissionais (6). O detalhamento dessas medidas pode ser consultado nos materiais da ANVISA.

Um passo importante da limitação da disseminação é o rastreamento e a identificação de contatos. São considerados contatos aquelas pessoas (inclusive profissionais da saúde sem uso de equipamento adequado) que tiveram exposição a paciente suspeito ou confirmado para mokeypox durante o período infeccioso (6). Os contatos deverão ser monitorados a cada 24 horas por 21 dias desde o último contato com o paciente índice. A temperatura deverá ser medida duas vezes ao dia em pacientes com sintomas suspeitos. Contatos que desenvolvam erupção cutânea deverão ser isolados e investigados laboratorialmente (6).

Existe tratamento para a varíola dos macacos?

Deve-se realizar tratamento de suporte e para controle de sintomas, bem como monitorar sinais de deterioração. As principais causas de hospitalização são desidratação ou hipovolemia e infecção secundária.

Não existe tratamento específico testado e aprovado para mokeypox. Entretanto, alguns antivirais para tratamento de varíola (tecovirimat e brincidofovir) e citomegalovírus (cidofovir) podem ser considerados (8); infelizmente, esses fármacos não estão disponíveis no Brasil. Pode-se utilizar vacinação de bloqueio, mas essas medidas devem ser orquestradas pelas autoridades sanitárias.

A melhor forma de prevenção é limitar a exposição. Apesar de raro no Brasil, deve-se evitar o consumo de carne silvestre, bem como o contato com animais com suspeita de acometimento. Profissionais da saúde devem utilizar equipamentos de proteção individual e atentar para as medidas de precaução recomendadas para cada caso (9).

Este artigo foi produzido e publicado em junho de 2022. Como este é um assunto em constante mudança e está sendo monitorado por sala de situação do MS, recomenda-se verificar novas atualizações no site do Ministério da Saúde.

Café pré-round: os pontos mais importantes deste assunto

  • A varíola dos macacos (mokeypox) é uma zoonose que está sendo monitorada pela OMS em função de surtos em países que não são endêmicos para a doença. Destaca-se que os casos parecem ser mais leves, sem mortes reportadas e mais comuns em homens que fazem sexo com homens.
  • São suspeitos pacientes que apresentem (após o dia 15 de março de 2022) febre (> 38,5°C) de instalação súbita, linfonodos aumentados e lesões cutâneas pápulo-vesiculares de progressão uniforme, associado com dor nas costas, astenia e/ou cefaleia. Tornam-se casos prováveis os indivíduos que tiveram contato com pessoas confirmadas ou viagem a países com casos confirmados.
  • Casos suspeitos devem ser notificados por meio de algum dos canais do Ministério da Saúde:

(a) Formulário: https://forms.office.com/r/BGwZjYz9Mu;

(b) E-mail: notifica@saude.gov.br;

(c) Telefone: 0800-6446645.

  • Para evitar a transmissão, o profissional cuidando de pacientes suspeitos ou confirmados deve adotar medidas de precaução de contato associadas a gotículas ou aerossóis (a depender da situação clínica).

 

Editoria de Clínica Médica

Editor-chefe: Dimitris Varvaki Rados.

Médico internista e endocrinologista. Mestre e doutor em endocrinologia pela UFRGS. Preceptor do programa de residência médica em medicina interna do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e pesquisador do TelessaúdeRS.

 

Bibliografia:

  1. WHO Coronavirus (COVID-19) Dashboard [Internet]. [citado 31 de maio de 2022]. Disponível em: https://covid19.who.int/
  2. Zumla A, Valdoleiros SR, Haider N, Asogun D, Ntoumi F, Petersen E, et al. Monkeypox outbreaks outside endemic regions: scientific and social priorities. Lancet Infect Dis [Internet]. 27 de maio de 2022; Disponível em: http://dx.doi.org/10.1016/S1473-3099(22)00354-1
  3. Multi-country monkeypox outbreak in non-endemic countries: Update [Internet]. [citado 4 de junho de 2022]. Disponível em: https://www.who.int/emergencies/disease-outbreak-news/item/2022-DON388
  4. About Monkeypox [Internet]. 2022 [citado 2 de junho de 2022]. Disponível em: https://www.cdc.gov/poxvirus/monkeypox/about.html
  5. Informe da Sala de Situação Monkeypox – no 22 – 13.06.2022 [Internet]. [citado 14 de junho de 2022]. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  6. NOTA TÉCNICA GVIMS/GGTES/ANVISA No 03/2022 – ORIENTAÇÕES PARA PREVENÇÃO E CONTROLE DA MONKEYPOX NOS SERVIÇOS DE SAÚDE [Internet]. [citado 2 de junho de 2022]. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa
  7. Gilchrist K. WHO can’t rule out monkeypox pandemic risk, says there’s a window of opportunity to stop outbreak [Internet]. CNBC. 2022 [citado 2 de junho de 2022]. Disponível em: https://www.cnbc.com/2022/05/30/monkeypox-who-says-there-is-a-window-of-opportunity-to-limit-outbreak.html
  8. Interim Clinical Guidance for the Treatment of Monkeypox [Internet]. 2022 [citado 3 de junho de 2022]. Disponível em: https://www.cdc.gov/poxvirus/monkeypox/treatment.html
  9. Prevention [Internet]. 2022 [citado 3 de junho de 2022]. Disponível em: https://www.cdc.gov/poxvirus/monkeypox/prevention.html
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