Como abordar o impacto da pandemia na saúde mental de mulheres

psiquiatria

Por Redação Secad   | 

Biologicamente, a mulher pode apresentar alterações de humor motivadas por questões hormonais. Socialmente, as emoções padecem diante de cobranças estéticas, em relacionamentos afetivos ou mesmo pela desigualdade imposta pelo mercado de trabalho. Logo, é comum entre o público feminino haver sobrecarga causada por agentes estressores – o que se intensificou em meio à pandemia.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que mulheres são mais suscetíveis à ansiedade e ao estresse, além de serem duas vezes mais propensas à depressão. Isso ocorre, em grande parte, pela ação de dois hormônios – o estrogênio e a progesterona, que atuam na produção e na liberação de neurotransmissores responsáveis pelo humor e pelo comportamento. De quebra, ambos impactam sobre crises de ansiedade e estresse.

Desde a idade da menarca até depois da menopausa, os eventos ligados à biologia da mulher podem desencadear quadros de sofrimento psíquico. Entre os principais fatores estão:

  • Disforia pré-menstrual;
  • Depressão perinatal e perimenopáusica;
  • Transtornos de humor e de ansiedade associados à infertilidade e a gestações abortadas;
  • Transtornos alimentares e transtorno de ansiedade generalizada (TAG), bem como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e doenças autoimunes;
  • Maior prevalência de transtornos de dor;
  • Mulheres ainda metabolizam álcool e drogas diferentemente dos homens, pois a quantidade de água no organismo feminino é menor, fazendo com que as substâncias fiquem mais concentradas.

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Saúde mental da mulher na pandemia

O estudo Exploratory study on the psychological impact of Covid-19 on the general Brazilian population, realizado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital (IPq) das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Famusp), identificou forte sobrecarga emocional no público feminino durante a pandemia. Três mil pessoas participaram da pesquisa, entre homens e mulheres, com média de idade de 39,8 anos.

Desse total, a maioria foram mulheres (83%), casadas (50,6%), formadas (70,1%) e empregadas (46,7%). Quase metade delas manifestou sintomas de depressão (46,4%), ansiedade (39,7%) e estresse (42,2%) – problemas que se sobressaíram entre aquelas sem filhos, estudantes, com doenças crônicas e que tiveram contato com indivíduos com diagnóstico de Covid-19.

“É importante salientar que ouvimos 83% de mulheres no estudo. Isso porque elas são mais participativas e, também, mais transparentes em relação aos seus sentimentos. E a própria literatura já as reconhece como mais vulneráveis aos transtornos de estresse, ansiedade e depressão”, explica o psicólogo Antônio de Pádua Serafim, coordenador do estudo e do Serviço de Neuropsicologia do IPq-USP.

Embora as causas não estejam no escopo da análise, Serafim atribui os transtornos especialmente ao excesso de responsabilidades que recaíram sobre elas no último ano. “É preciso considerar que a escola foi para dentro de casa, e isso somou-se aos afazeres do lar, que são majoritariamente feitos por mulheres, além da presença do marido na rotina”, acrescenta.

Fatores como violência doméstica e abusos – sexual e psicológico – também podem ter contribuído negativamente, já que em 2020 as denúncias de agressão feitas junto ao serviço telefônico 180 aumentaram 40%.

Cuidados e manejo

Para Antônio Serafim, do IPq-USP, uma das regras básicas na prática clínica em saúde mental é analisar a frequência e intensidade dos pensamentos, comportamentos e emoções relatados. “Na abordagem com mulheres, a estratégia ajuda a verificar o quanto da queixa se trata de tristeza, cansaço e irritabilidade e o quanto está associado a sobrecarga de tarefas”, afirma.

O ideal, portanto, é a criação de mecanismos de aprofundamento no acolhimento das queixas. Para isso, o pesquisador propõe uma trilha de questões para a anamnese. São elas:

  • Há quanto tempo sente-se assim?
  • Qual é a intensidade?
  • As manifestações são constantes?
  • Esses sentimentos têm aumentado?

Não é recomendável minimizar o relato da paciente. “Dizer que no contexto da pandemia está todo mundo se sentindo mal não ajuda. O ideal é estratificar e individualizar o atendimento.” Outros aspectos que devem ser levantados pelos profissionais estão relacionados a sintomatologias específicas, como a qualidade de sono, mudanças no padrão alimentar, dores no corpo e alterações cognitivas (dificuldade de concentração, clareza e tomada de decisões).

“Com esses tópicos, chega-se mais fácil ao diagnóstico de situações emocionais com mulheres, já que homens costumam adotar postura mais negativa, indiferente, ou postergar a busca por ajuda nesse sentido”, diz Serafim. Tais questões devem nortear a anamnese de todos os profissionais de saúde, dado o contexto particular causado pela pandemia.

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