Saúde mental de crianças e adolescentes: efeitos da pandemia

Saúde mental

Por Nilton Correia   | 

Como citar este artigo: Anjos Filho, N. C. dos & Neufeld, C. B. (2022, 11 mai). Saúde mental de crianças e adolescentes: efeitos da pandemia. Blog Artmed. https://blog.artmed.com.br/psicologia/saude-mental-criancas-e-adolescentes-pandemia

 

Após dois anos desde que a COVID-19 foi caracterizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma pandemia, seus impactos estendem-se e aprofundam-se em diversas dimensões. Embora alguns países demonstrem sinais de recuperação, as consequências geradas pela pandemia ainda são presentes e agravam-se, como, por exemplo, em populações específicas.

No caso dos jovens, o recente relatório Preventing a lost decade: Urgent action to reverse the devastating impact of COVID-19 on children and young people (United Nations Children’s Fund, 2021) enfatiza o quanto os efeitos da pandemia têm colocado em risco as conquistas alcançadas para a faixa populacional de crianças, adolescentes e jovens adultos nas últimas décadas no campos da saúde, educação, alimentação, convivência familiar e comunitária, entre outros.

De acordo com o documento, por exemplo, a estimativa é de que 100 milhões de crianças a mais estejam sob a condição de uma pobreza multidimensional por causa da COVID-19 no mundo, revelando um aumento de 10% desde 2019.

Além disso, o documento traz dados de que, na pior fase da pandemia, mais de 1,6 bilhão de estudantes não frequentaram as unidades educacionais e que estas permaneceram fechadas em todo o mundo por aproximadamente 80% do ano letivo no ano de 2020.

Também no período de maior crise da pandemia, 1,8 bilhão de crianças viviam nos 104 países onde os serviços direcionados para a prevenção e enfrentamento à violência foram interrompidos.

Outra expectativa alarmante é de que, somente no ano de 2022, nove milhões de crianças podem passar a integrar o grupo de desnutrição aguda, sendo que já se encontram, atualmente, sob esta mesma condição cerca de 50 milhões de crianças.

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Efeitos da pandemia na saúde mental infantojuvenil 

Quando se trata dos efeitos da pandemia da COVID-19 sobre a saúde mental infantojuvenil, os achados de investigações científicas revelam o quanto a situação da população jovem é cada vez mais preocupante:

  • Maiores níveis de estresse em crianças e adolescentes (Park, Park & Jin, 2021);
  • Aumento da prevalência de medo relacionado ao COVID-19 (Samji et al., 2021);
  • Maior presença de sintomas depressivos (Ma et al., 2021; Racine et al., 2021; Samji et al., 2021) e ansiosos (Racine et al., 2021; Samji et al., 2021; Tang, Xiang, Cheung & Xiang, 2021);
  • Maiores índices de desatenção (Jiao et al., 2020), de irritabilidade (Imran, Aamer, Sharif, Bodla & Naveed, 2020) e de estresse (Miranda, Athanasio, Oliveira & Simoes-e-silva, 2020);
  • Menores níveis de expressividade emocional (Singh et al., 2020);
  • Maiores taxas de abuso infantil (Cluver et al., 2020).

Uma revisão (Samji et al., 2021) também revelou que tanto as crianças e os adolescentes neurodiversos quanto os que são portadores de transtornos mentais pré-existentes também tiveram alta prevalência de sofrimento psicológico, depressão, ansiedade e problemas de comportamento. Igualmente, os jovens que tinham problemas de saúde crônicos (p. ex., doenças respiratórias e câncer) também tiveram a sua saúde mental comprometida com a pandemia.

Samji et al. (2021) também apontaram para os achados de alguns estudos que indicam maiores índices de ideação suicida, suicídio e autolesão não suicida entre crianças e adolescentes, apesar de ressaltarem que esses dados merecem ser analisados com maior cautela.

 

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Clemente-Suárez et al. (2021), apresentaram estudos que demonstraram efeitos da pandemia da COVID-19 sobre os jovens que necessitaram permanecer em quarentena, revelando que eles apresentaram maior probabilidade de desenvolver estresse agudo, transtorno de adaptação, entre outros.

No Brasil, apesar dos dados epidemiológicos gerais sobre a saúde mental na pandemia serem escassos, alguns estudos têm informado sobre os efeitos não somente sobre as crianças e os adolescentes, mas nos cuidadores destes. Por exemplo, Martins et al. (2021) revelaram que os sintoma ansiosos e depressivos  dos pais brasileiros aumentaram durante a pandemia e que a ansiedade parental foi correlacionada negativamente com a regulação emocional dos filhos.

Achados como estes evidenciam que a piora da saúde mental dos pais neste período pode contribuir para uma capacidade ineficaz das crianças de modular tanto a intensidade quanto a duração dos estados emocionais para que ocorra um manejo funcional das situações associadas e que se expressem as emoções apropriadamente. Ressalta-se que a regulação emocional também está associada a presença de problemas de comportamento externalizantes e internalizantes infantis (Eisenberg, Hernandéz & Spinrad, 2017).

Iniciativas de enfrentamento 

Os estudos mencionados revelam que as crianças e adolescentes apresentaram, além das implicações econômicas e biológicas, um impacto significativo na sua saúde mental, seja pela experiência direta ou possibilidade de serem infectados pelos vírus ou pelos efeitos decorrentes do distanciamento social que pode envolver desfechos em diversos aspectos do seu desenvolvimento.

Desse modo, a Associação Brasileira de Psiquiatria (2020) realizou uma pesquisa junto a seus associados, revelando o impacto da pandemia da COVID-19 nos atendimentos realizados. Além de ocorrer maior demanda por consultas psiquiátricas, os médicos relataram um agravamento dos sintomas psiquiátricos em pacientes que estavam em tratamento.

A SBP também constituiu o Grupo de Trabalho de Enfrentamento da Pandemia COVID-19, que reuniu informações técnicas para auxiliar na prática profissional da Psicologia.

Essas medidas parecem ser consistentes com outras organizações internacionais que vêm alertando sobre o período de crise na saúde mental infantojuvenil em decorrência da pandemia da COVID-19, como por exemplo a American Pychological Association.

Nos Estados Unidos, algumas medidas têm sido adotadas a fim de mitigar o impacto da pandemia sobre a saúde mental das crianças e adolescentes (Abramson, 2022). Entre as ações estão:

1) inclusão de conteúdos sobre saúde mental nos currículos escolares; treinamento de professores e profissionais que atuam nas escolas em prevenção estratégias de apoio aos alunos e em habilidades sociais e emocionais básicas para auxiliar os jovens a lidar com o estresse e a ansiedade;

2) implementação de programas de saúde mental para ajudar os educadores a identificar sinais de trauma nas crianças e adolescentes, bem como promover melhor enfrentamento dos profissionais para lidar com os seus próprios traumas;

3) produção e entrega de cartilhas a fim de dar informações para os professores identificarem comportamentos em sala de aula sinais de problemas de saúde mental nos alunos, além de direcionar os educadores para recursos e serviços adequados aos jovens. Ressalta-se que cartilhas, normas técnicas e orientações profissionais também foram produzidas no Brasil, como os materiais ofertados pela Sociedade Bralseira de Psicologia.

O  relatório produzido pela United Nations Children’s Fund também aponta a necessidade da implementação de ações que visam não somente aos fatores de proteção da saúde mental infantojuvenil (p.ex., pais e cuidadores infantis sensíveis e assertivos, ambientes educacionais seguros e relacionamentos positivos com os pares), como também atuações para diminuir os estigmas com os portadores de transtornos mentais e para ampliar o financiamento governamental para os serviços de saúde mental, além dos dispositivos que integram setores da educação, saúde e proteção social.

Todas essas propostas revelam o quanto é necessárias condutas coletivas que envolvem profissionais, cuidadores diretos dos jovens, entidades, organizações não governamentais e formulação e execução de políticas públicas pelos governos municipais, estaduais e federal a fim de conter os impactos negativos da pandemia da COVID-19, seja durante ou após seu fim.

 

Editoria de Psicologia

Editora-chefe: Carmem Beatriz Neufeld.

Psicóloga. Livre docente em TCC pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP. Pós-Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora e Mestra em Psicologia pela PUCRS. Fundadora e Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Professora Associada do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – USP. Presidente da Federação Latino Americana de Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - ALAPCCO (2019-2022). Presidente-fundadora da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Bolsista Produtividade do CNPq.

 

Referências:

Abramson, A. (2022). Children’s mental health is in crisis. American Pychological Asssociation, 53(1), 69. Recuperado de https://www.apa.org/monitor/2022/01/special-childrens-mental-health#:~:text=While some children benefited from,from a mental health provider.

Associação Brasileira de Psiquiatria. (2020). Pesquisa da ABP tem resultado amplamente divulgado pela mídia. Recuperado de https://www.abp.org.br/post/pesquisa-da-abp-tem-resultado-amplamente-divulgado-pela-midia

Clemente-Suárez, V. J., Navarro-Jiménez, E., Jimenez, M., Hormeño-Holgado, A., Martinez-Gonzalez, M. B., Benitez-Agudelo, J. C., … Tornero-Aguilera, J. F. (2021). Impact of COVID-19 pandemic in public mental health: An extensive narrative review. Sustainability (Switzerland), 13(6), 3221. doi: 10.3390/su13063221

Cluver, L., Lachman, J. M., Sherr, L., Wessels, I., Krug, E., Rakotomalala, S., … McDonald, K. (2020). Parenting in a time of COVID-19. The Lancet, 395(10231), e64. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30736-4

Eisenberg, N., Hernandéz, M. M., & Spinrad, T. L. (2017). The relation of self-regulation to children’s externalizing and internalizing problems. In C. A. Essau, S. Leblanc, & T. H. Ollendick (Eds.), Emotion Regulation and Psychopathology in Children and Adolescents (pp. 18–42). doi: 10.1093/med:psych/9780198765844.003.0002

Imran, N., Aamer, I., Sharif, M. I., Bodla, Z. H., & Naveed, S. (2020). Psychological burden of quarantine in children and adolescents: A rapid systematic review and proposed solutions. Pakistan Journal of Medical Sciences, 36(5), 1106–1116. doi: 10.12669/pjms.36.5.3088

Jiao, W. Y., Wang, L. N., Liu, J., Fang, S. F., Jiao, F. Y., Pettoello-Mantovani, M., & Somekh, E. (2020). Behavioral and Emotional Disorders in Children during the COVID-19 Epidemic. Journal of Pediatrics, 221, 264-266.e1. doi: 10.1016/j.jpeds.2020.03.013

Ma, Z., Idris, S., Zhang, Y., Zewen, L., Wali, A., Ji, Y., … Baloch, Z. (2021). The impact of COVID-19 pandemic outbreak on education and mental health of Chinese children aged 7–15 years: an online survey. BMC Pediatrics, 21, 1–8. doi: 10.1186/s12887-021-02550-1

Martins, C. R., Neiva, A. C. L., Bahia, A. F., Oliveira, C. X., Cardoso, M. I. S., & Abreu, J. N. S. (2021). Parents’ mental health and children’s emotional regulation during the COVID-19 pandemic. Psicologia: Teoria e Prática, 23(1), 1–19. doi: 10.5935/1980-6906/ePTPC1913534

Miranda, D. M. de, Athanasio, B. da S., Oliveira, A. C. S., & Simoes-e-silva, A. C. (2020). How is COVID-19 Pandemic Impacting Health of Children and Adolescents? International Journal of Disaster Risk Reduction, 51(1–8). doi: 10.1016/j.ijdrr.2020.101845

Organização Pan-Americana da Saúde. (2020). Histórico da pandemia de COVID-19. Recuperado de https://www.paho.org/pt/covid19/historico-da-pandemia-covid-19#:~:text=Em 31 de dezembro.

Park, J. hyang, Park, J. young, & Jin, K. sun. (2021). What did COVID-19 Change? The Impact of COVID-19 on Korean Parents’ and Children’s Daily Lives and Stress. Child Psychiatry and Human Development, 53(1), 172–182. doi: 10.1007/s10578-021-01262-y

Racine, N., McArthur, B. A., Cooke, J. E., Eirich, R., Zhu, J., & Madigan, S. (2021). Global Prevalence of Depressive and Anxiety Symptoms in Children and Adolescents During COVID-19: A Meta-analysis. JAMA Pediatrics, 175(11), 1142–1150. doi: 10.1001/jamapediatrics.2021.2482

Samji, H., Wu, J., Ladak, A., Vossen, C., Stewart, E., Dove, N., … Snell, G. (2021). Review: Mental health impacts of the COVID‐19 pandemic on children and youth – a systematic review. Child and Adolescent Mental Health. doi: 10.1111/camh.12501

Singh, S., Roy, D., Sinha, K., Parveen, S., Sharma, G., & Joshi, G. (2020). Impact of COVID-19 and lockdown on mental health of children and adolescents: A narrative review with recommendations. Psychiatry Research, 293, 113429. doi: 10.1016/j.psychres.2020.113429

Sociedade Brailseira de Psicologia. (2020). Enfrentamento COVID-19. Recuperado de https://www.sbponline.org.br/enfrentamento-covid19

Tang, S., Xiang, M., Cheung, T., & Xiang, Y. T. (2021). Mental health and its correlates among children and adolescents during COVID-19 school closure: The importance of parent-child discussion. Journal of Affective Disorders, 279, 353–360. doi: 10.1016/j.jad.2020.10.016

United Nations Children’s Fund. (2021). Preventing a Lost Decade: Urgent action to reverse the devastating impact of COVID-19 on children and young people. Recuperado de https://www.unicef.org/media/114636/file/SOWC-2021-full-report-English.pdf

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