Saúde mental e envelhecimento na população LGBTQIAP+

Psicologia

Por Nilton Correia   | 

Como citar este artigo: Anjos Filho, N. C. dos & Neufeld, C. B. (2022, 09 jun.). Saúde mental e envelhecimento na população LGBTQIAP+. Blog Artmed. https://blog.artmed.com.br/psicologia/saude-mental-populacao-idosa-lgbtqiap

 

Dos mais de 213 milhões de brasileiros (IBGE, 2021), a estimativa da população idosa é de mais de 31 milhões de pessoas (IBGE, 2018). Em 2100, a projeção é que 40% do total de brasileiros seja composto por idosos, o que revela uma mudança cada vez mais significativa da estrutura etária do país (Bonifácio & Guimarães, 2021). Contudo, para além dos limites estabelecidos pela idade, o processo do envelhecimento implica uma série de desdobramentos na vida dos indivíduos, o que leva a uma necessidade compressão mais ampla por parte dos profissionais de saúde de terem uma, envolvendo aspectos físicos, psicológicos, culturais e sociais da velhice (Araújo & Carlos, 2018). Consequentemente, é também imprescindível discutir sobre a diversidade dos idosos, incluindo, entre outros, o recorte de orientação sexual e a identidade e a expressão de gênero (Goldsen & Vries, 2019).

A população LGBTQIAP+ comumente é exposta a estressores de minorias, como a vitimização, a discriminação, a antecipação do estigma e o estigma em si, o que impacta negativamente no seu bem-estar físico e mental (Pereira, 2021). Ressalta-se que o termo minoria aqui é utilizado para se referir aos impactos sofridos em decorrência das relações de poder existentes na sociedade.

No caso dos idosos desse grupo, fatores específicos parecem intensificar os problemas mencionados. Por exemplo, a vivência em uma época anterior marcada pela opressão e pela pressão para esconder sua orientação sexual e/ou identidade de gênero a fim de evitar situações discriminatórias pode ter gerado traumas que exacerbam o sofrimento mental.

Outros fatores relacionados aos idosos LGBTQIA+ incluem viver sozinhos e não ter filhos, por exemplo (King & Richardson, 2017). Consequentemente, tais indivíduos têm maior probabilidade de desenvolverem problemas de saúde, como obesidade, câncer de mama, HIV (Yarns, Abrams, Meeks & Sewell, 2016), doenças cardiovasculares e depressão, condições estas que aumentam o risco de um declínio cognitivo precoce (Correro & Nielson, 2020); além de apresentarem níveis mais elevados de abuso de substâncias, solidão e suicídio (King & Richardson, 2017). A título de exemplificação,  homens gays e bissexuais mais velhos com níveis mais altos de estigma sexual apresentaram maiores índices de ansiedade, depressão, problemas somáticos e ideação suicida (Pereira, 2021).

A Teoria de Estresse de Minoria (Meyer, 1995, 2010) elucida a maior incidência de problemas de saúde na população idosa LGBTQIA+. Existem três processos de estresse de minorias na população composta por gays, lésbicas e bissexuais identificados na literatura (Costa et al., 2020; Meyer, 1995, 2003):

1) estigma imposto ao envolver experiências da expressão explícita de outras pessoas, que englobam perseguição, rejeição, agressão, violência ou discriminação relacionadas à orientação sexual;

2) homonegatividade internalizada referente ao processo de o indivíduo absorver atitudes sociais negativas e incorporá-las à sua identidade pessoal, o que leva a sentimentos de vergonha e tristeza e comportamentos evitativos e autodestrutivos, por exemplo;

3) encobrimento da orientação sexual/identidade de gênero por temer punição e rejeição na sociedade.

Por meio dos processos mencionados, o modelo teórico pressupõe que os membros de tal grupo minoritário sofrem estresses específicos, repercutindo não somente na saúde mental, mas na ocorrência de acontecimentos e contextos particulares, como barreiras no acesso a recursos de enfrentamento e de apoio, imposição de valores e normas discordantes (p. ex., heteronormatividade) e inclusão em sistemas educacionais de menor qualidade e residir em locais menos favorecidos (Meyer, 2003).

Por esse motivo, os profissionais de saúde precisam visualizar e compreender melhor a população idosa LGBTQIAP+ para não se equivocarem em resumir tais indivíduos às suas orientações sexuais, identidades de gênero, práticas sexuais e status de relacionamentos, por exemplo, ou ainda para não supor que todos(todes) os seus pacientes idosos são heterossexuais (Clay, 2014).

Além disso, é importante entender que há uma diversidade dentro do grupo minoritário em questão e que cada letra da sigla LGBTQIAP+ diz respeito a vivências e condições singulares (Clay, 2014). Por exemplo, indivíduos com uma identidade de gênero que não está totalmente alinhada ao sexo ao qual foram atribuídos no nascimento vivenciam particularidades que outras pessoas não experimentam, como o enfrentamento de nível significativamente alto de estigma social e discriminação – o que leva a uma probabilidade alta de consequências negativas para a saúde mental.

Para agravar o contexto, profissionais de saúde têm pouca familiaridade com tais questões, o que ocasiona em uma série de condutas e intervenções inadequadas e ineficazes (American Psychological Association, 2015). Desse modo, com base nas diretrizes para a prática psicológica com clientes lésbicas, gays e bissexuais (American Psychological Association, 2012), com transexuais e pessoas que não se conformam com o gênero (American Psychological Association, 2015) e com idosos (American Psychological Association, 2014), abaixo estão algumas orientações que podem nortear a prática profissional.

  1. Ampliar o conhecimento e compreensão sobre a população idosa LGBTQIAP+ por meio de educação continuada, treinamentos e supervisões

Adotar um cuidado que atenda adequadamente às especificidades de tais indivíduos passa por uma formação profissional baseada em evidências. É importante contemplar:

  • a sexualidade humana e os modelos multidimensionais de orientação sexual;
  • os aspectos inerentes da identidade de gênero;
  • problemas de saúde mental que afetam a população idosa LGBTQIAP+;
  • o desenvolvimento da identidade em uma sociedade heteronormativa, incluindo fatores raciais e socioculturais;
  • os efeitos da estigmatização, discriminação e preconceito;
  • as formas de relacionamento não tradicionais;
  • as questões de religião e espiritualidade;
  • a teoria e a pesquisa sobre o envelhecimento;
  • os aspectos biológicos, sociais e psicológicos relacionados à saúde do envelhecimento;
  • os métodos de avaliação e as intervenções adequadas aos idosos.
  1. Distinguir as questões de orientação sexual daquelas de identidade e expressão de gênero 

Além de obter mais informações sobre as inter-relações existentes entre orientação sexual, sexo e identidade e expressão de gênero, é preciso auxiliar os pacientes a compreenderem distinções entre esses aspectos.

Ressalta-se que gênero é uma construção não-binária, que possibilita uma gama de identidades, e que a identidade de gênero de uma pessoa pode não se alinhar com o sexo atribuído no nascimento. Ademais, os profissionais devem estar cientes de seus próprios valores e preconceitos em relação ao sexo, gênero e orientação sexual a fim de não comprometer a qualidade do tratamento ofertado.

  1. Auxiliar no desenvolvimento de ambientes afirmativos

Como muitas idosos dessa faixa populacional tem um histórico e podem sofrer discriminações, os profissionais de saúde devem promover um ambiente acolhedor e respeitoso e ficarem atentos aos sinais que podem transmitir hostilidade. Para isso, além de ter uma maior qualificação, os profissionais devem ser proativos a fim de reduzir e/ou extinguir quaisquer obstáculos que implicam no conforto de tal população. Um exemplo é a implementação de um sistema de feedback para coletar dados dos idosos para que tenha uma maior percepção dos problemas e agir em direção a ambientes e uso de recursos afirmativos. Outro aspecto relevante é o cuidado com a linguagem que os profissionais devem utilizar, como o uso de pronomes, pois equívocos podem reforçar a estigmatização e ser um empecilho ao acesso desses idosos aos estabelecimentos de saúde. Caso necessário, é relevante implementar treinamento para toda a equipe de saúde. Portanto, os profissionais devem compreender o seu papel na promoção de mudanças sociais que reduzem os efeitos negativos do estigma sobre a saúde e o bem-estar da população idosa LGBTQIA+, pois esta terá maior chance de possuir resultados de vida positivos quando recebe apoio social e cuidado adequado.

  1. Compreender os desafios específicos dos idosos LGBTQIAP+ e a resiliência que eles(elus/iles) podem desenvolver

Muitos indivíduos da população idosa LGBTQIA+ estão socialmente isolados, o que pode ser resultado da morte de pessoas da sua rede social ou pelas experiências negativas que envolvem o processo de afirmação da sua orientação sexual e/ou identidade e expressão de gênero. Os profissionais de saúde podem auxiliar os idosos a estabelecer novos ou fortalecer os vínculos afetivos e funcionais já existentes. Para os idosos que optam por não revelar socialmente sua identidade de gênero e/ou orientação sexual, os profissionais podem ofertar suporte para que eles(iles/elus) lidem com sentimentos de vergonha, culpa e tristeza ou preconceitos internalizados que podem existir, além de ter empatia e validar a decisão tomada pelos próprios idosos.

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  1. Compreender a diversidade no processo de envelhecimento para além da orientação sexual e identidade e expressão de gênero

Existem diversos fatores que atravessam a fase da velhice, como os socioculturais, gênero, raça, etnia, status socioeconômico, deficiência e localização da residência, entre outros. Todas essas variáveis podem influenciar a experiência e a saúde dos idosos LGBTQIA+. É importante ter ciência de como pertencer a um grupo minoritário relaciona-se com outros aspectos da identidade. Por exemplo, afroamericanos(as)(es) LGBTQIA+ podem temer perder o apoio, a conexão e a aceitação da sua comunidade étnico-racial devido à sua identidade de gênero e/ou e orientação sexual, o que pode implicar duplamente em problemas na saúde mental (Woody, 2015).

  1. Obter e manter atualizado o conhecimento sobre as políticas públicas, as leis e regulamentações acerca da população idosa

É relevante ter informações o acerca dos direitos que devem ser assegurados dos idosos que estão explicitados na Lei no 10.741 (2003). A depender do local onde o profissional exerça sua função é necessário conhecimento mais técnico políticas institucionais ou procedimentos específicos que envolvem a vida dos indivíduos. A melhor compreensão pode auxiliar na conduta profissional, além de possibilitar que seja acionado outras instituições e serviços a fim de que os direitos da pessoa idosa sejam respeitados.

Diante do exposto, romper com um histórico de opressão, discriminação, estigmatização e sofrimento é imprescindível para tornar uma sociedade justa e igualitária. Os profissionais de saúde que trabalham com a população idosa precisam ter ciência da existência e das particularidades que envolvem os idosos LGBTQIA+, assumindo uma atuação proativa, acolhedora, respeitosa, humanizada e sensível às necessidades deste grupo minoritário. Dar visibilidade e maior qualidade na atenção prestada pode ser diferencial na última fase da vida.

 

Editoria de Psicologia

Editora-chefe: Carmem Beatriz Neufeld.

Psicóloga. Livre docente em TCC pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP. Pós-Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora e Mestra em Psicologia pela PUCRS. Fundadora e Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Professora Associada do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – USP. Presidente da Federação Latino Americana de Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - ALAPCCO (2019-2022). Presidente-fundadora da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Bolsista Produtividade do CNPq.

 

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Costa, A. B., Paveltchuk, F., Lawrenz, P., Vilanova, F., Borsa, J. C., Damásio, B. F., … Dunn, T. (2020). Protocolo para Avaliar o Estresse de Minoria em Lésbicas, Gays e Bissexuais. Psico-Usf, Bragança Paulista, 25(2), 207–222. https://doi.org/10.1590/1413-82712020250201

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Yarns, B. C., Abrams, J. M., Meeks, T. W., & Sewell, D. D. (2016). The Mental Health of Older LGBT Adults. Current Psychiatry Reports, 18, 60. https://doi.org/10.1007/s11920-016-0697-y

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