O crescimento das Terapias Cognitivo-comportamentais: review do Seminário ALAPCCO 25 anos

TCC

Por Priscila Fidelis   | 

Como citar este artigo: Fidelis, P. C. B. & Neufeld, C. B. (2021, dez.). Review do Seminário ALAPCCO 25 anos: o crescimento das TCCs. Blog Artmed. https://blog.artmed.com.br/psiquiatria/review-seminario-alapcco-25-anos

No dia 4 de novembro de 2021, foi realizado o seminário em comemoração aos 25 anos da Federação Latino-Americana de Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais (ALAPCCO). A Federação foi criada por acadêmicos do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai em novembro de 1996, durante o I Simpósio Latino-americano realizado em Buenos Aires. A entidade congrega associações de 22 países do continente latino-americano e tem como objetivo promover divulgação, treinamento e intercâmbio teórico e clínico.

O seminário gratuito foi promovido pela ALAPCCO em parceria com a Artmed, teve como tema central o crescimento das Terapias Cognitivo-comportamentais ao longo dos últimos 25 anos e foi organizado em duas conferências e uma mesa-redonda com convidados nacionais e internacionais, referências na área. Resumimos neste artigo os principais pontos abordados no evento.

A abertura foi realizada pela presidente da ALAPCCO, a professora Drª Carmem Beatriz Neufeld, que realizou uma exposição sobre o que nos espera nos próximos 25 anos. Ela ressaltou que a ALAPCCO representa um continente diverso, com muitas diferenças culturais e desafios semelhantes, como desigualdade social, pobreza e violência; e que a Psicologia latino-americana tem desafios comuns, como a postura passiva dos profissionais ao reproduzir conhecimento vindo do exterior, pouca difusão da prática baseada em evidências, espaço muito forte centrado na intuição ou inferências do terapeuta e falta de investimento constante em capacitação e supervisão.

Para os próximos 25 anos, Drª Carmem expôs seus sonhos para a Psicologia: desenvolver uma postura de tolerância entre os diferentes enfoques teóricos e o crescimento da prática baseada em evidências; crescimento das intervenções baseadas em processos, claramente guiadas por conceitualizações cognitivas e/ou análises funcionais com foco no bem-estar das pessoas e não no gosto pessoal do terapeuta; uma prática ancorada social e culturalmente, onde a realidade e o contexto único das pessoas tenham seu espaço, inclusive as minorias, e nossa humanidade comum marque o tom do nosso discurso e intervenções; e por último, uma prática orientada a democratização do conhecimento e de acesso à saúde, onde efetivamente se construa o protagonismo das pessoas, para que de forma autônoma tomem as rédeas da sua vida. Este é o futuro que queremos para os próximos 25 anos.

Resumo das conferências 

A primeira conferência, Não confie em tudo que você sente, foi realizada pelo professor Dr. Robert Leahy, que expôs o modelo do esquema emocional escrito por ele ao longo de muitos anos de pesquisa. O professor explicou o papel adaptativo das emoções e que todas as pessoas têm emoções difíceis ao longo da vida.

Também, ressaltou que as pessoas criam teorias sobre as suas emoções e as emoções dos outros, crenças sobre sua validade, duração e controle, enfatizando que uma visão negativa das emoções e tentativas de suprimi-las ou evitá-las, intensificam as emoções desagradáveis de sentir, portanto, precisamos aprender a viver com emoções difíceis e com as emoções das outras pessoas porque isso simplesmente faz parte do ser humano.

Dr. Leahy pontuou que as crenças sobre as emoções são construídas socialmente, ou seja, as diferenças culturais e o período histórico têm influenciado as crenças das pessoas sobre as emoções, a forma como lidamos com as emoções e nos comportamos diante delas.

No século XX, por exemplo, em muitas partes do mundo ocidental tivemos a emergência da proteção emocional, influenciado por teorias psicológicas que difundiram a ideia de que traumas na infância podem causar problemas permanentes na vida adulta, de que emoções são perigosas e de que as crianças precisam ser protegidas o tempo todo de qualquer frustração.

Essa superproteção colocou uma ênfase em ser uma vítima, em reclamar, o que o conferencista nomeou como perfeccionismo existencial, caracterizado por queixas supergeneralizadas, insatisfação, perfeccionismo emocional (crenças de que é preciso evitar qualquer desconforto, de que as emoções devem ser sempre agradáveis de sentir) e a mente pura (crenças de que a mente deveria estar sempre clara, com pensamentos e sentimentos claros, sem ambivalências).

O professor apresentou seis estratégias para lidar com as emoções:

  • realismo emocional;
  • ter consciência que desapontamentos são inevitáveis;
  • perceber que o desconforto pode ser construtivo;
  • fazer o que precisa ser feito ao invés de focar só no que gostaria de fazer;
  • compreender que o ser humano é imperfeito e ainda assim pode ser bem-sucedido;
  • e ampliar as coisas com as quais você pode ficar satisfeito no curto prazo.

Outro ponto abordado na conferência foi a dificuldade que temos para prever emoções – algumas pessoas tendem a superestimar os efeitos dos eventos e a durabilidade, focar nas consequências imediatas e subestimar as habilidades que temos para lidar com os eventos negativos. O professor também destacou que o perfeccionismo existencial impacta na tomada de decisão e apresentou as distorções que mais comuns:

  • catastrofização;
  • desconsiderar o positivo;
  • pensamento dicotômico;
  • filtro negativo;
  • raciocínio emocional.

Ele também ressaltou que, para tomar decisões, é importante perceber que há uma escolha mais viável no momento, mas nenhuma escolha é segura; todas as decisões envolvem riscos e não escolher também é uma escolha.

Por último, foram abordado o ciúme e o perfeccionismo romântico, e o professor apresentou estratégias para lidar com o ciúme e expressá-lo. O Dr. Robert Leahy publicou recentemente os livros “Não acredite em tudo o que você sente” (2021) e “A cura do ciúme” (2019).

 

Inscreva-se no III Simpósio Internacional da ALAPCCO e fique por dentro das novidades da área. Grandes nomes esperam você!

A segunda conferência, TCC expressa com crianças e adolescentes, foi apresentada pela Drª. Jessica McClure, que propõe a aplicação da Terapia cognitivo-comportamental (TCC) baseada em evidências em diferentes ambientes e de forma rápida, com sessões de 15 minutos. A Drª. Jessica ressaltou que, mesmo sendo uma intervenção rápida, é preciso realizar três passos antes da intervenção:

  • uma breve conceitualização do caso para entender de fato a função do comportamento que está sendo abordado;
  • esclarecer a hipótese de conteúdo e de especificidade;
  • e estabelecer medidas para verificar a eficácia da intervenção, como medidas de sintomas ou metas funcionais.

Após essa etapa, é possível propor uma intervenção para os sintomas utilizando psicoeducação do modelo cognitivo, tarefas comportamentais, ativação comportamental e exposição. Algumas estratégias de intervenção são descritas no livro “TCC expressa: técnicas de 15 minutos para crianças e adolescentes”, publicado em 2021 pela professora.

Ela enfatizou que é preciso orientar rapidamente os pais sobre a importância de utilizar repetidamente e de formas diferentes a atenção diferencial, o apreço, as orientações efetivas e seguir as consequências para construir novos comportamentos. O terapeuta pode, ainda, modelar o comportamento dos pais, demonstrando durante a sessão como estes princípios podem ser utilizados.

A mesa redonda O desenvolvimento das TCCs nos últimos 25 anos foi dividida em 4 momentos. Primeiro. o professor Dr. Bernard Rangé falou sobre a evolução da TCC para ansiedade nos últimos 25 anos, destacando a contribuição de muitos pesquisadores. Ele chamou atenção para duas técnicas comuns para tratar transtornos de ansiedade: psicoeducação sobre os pensamentos, como experiências internas incontroláveis, que quanto mais há a tentativa de  controle, mais se intensificam na experiência; e manejo das preocupações, por meio da psicoeducação sobre preocupações produtivas (problemas objetivos, imediatos e solucionáveis) e improdutivas (problemas hipotéticos), elaboração de uma lista de preocupações, avaliação do quanto de ansiedade essas preocupações geram e quais são produtivas, para então fazer um plano de ação para modificar seu funcionamento.

Em seguida, a professora Drª. Ileana Caputo apresentou o desenvolvimento das intervenções para transtornos de personalidade ao longo dos últimos 25 anos, destacando como estratégias importantes de intervenção: Mindfulness, Terapia de Aceitação e compromisso (ACT), Terapia comportamental dialética (DBT) e Terapia de Ativação emocional (EAT).

A terceira apresentação foi realizada pelo professor Dr. Augusto Zagmunt sobre o desenvolvimento do pós-racionalismo nos últimos 25 anos, e destacou que o homem é muito mais complexo do que qualquer teoria pode conceber e que a Psicologia Cognitiva trouxe uma noção de homem que explica o modo como organizamos ativamente nossa experiência, além de enfatizar a importância de conhecermos as regras de comportamento que nos guiam.

Por último, o professor Dr. Hector Fernández-Álvarez explanou sobre o movimento de integração nas TCCs ao longo dos últimos 25 anos. A integração de teorias, teoria da personalidade, teorias explicativas e teoria do apego, construindo espaço para um modelo transdiagnóstico e transteórico que revela a integração que aconteceu naturalmente.

O professor afirmou que os modelos de distintas fontes foram convergindo porque mostram a consonância dos princípios descritivos e explicativos que podemos aplicar para aumentar a eficiência da prática clínica, e que a TCC é a coluna central desta integração entre as psicoterapias, que ao se desenvolver aumenta a eficácia das práticas.

O Dr. Hector pontuou avanços na integração das TCCs:

  • abordagem transdiagnóstica;
  • modelos dimensionais;
  • TCC baseada em processos;
  • e TCC integrativa.

O professor também destacou as principais características da TCC integrativa segundo Wenzel (2018): ênfase no autocontrole, focada no problema, estruturada, incorpora psicoeducação e tarefas entre as sessões, se apoia no empirismo colaborativo, é tecnicamente eclética, promove a prevenção e se apoia na parcimônia para explicar os fenômenos psicológicos.

Por último, ele apresentou os princípios fundamentais das psicoterapias integrativas: os diversos vetores do processamento da informação da atividade mental, que não se restringe ao processamento formal; os modelos multiníveis da atividade psicológica funcional e disfuncional, articulando bem a relação entre comportamento e experiência; e o papel da personalidade como articulador dos processos, modulando as condições clínicas.

O seminário em comemoração aos 25 anos da ALAPCCO promoveu a divulgação de pesquisas recentes produzidas no mundo e apresentou novos rumos e tendências para a Psicologia latino-americana e as Terapias cognitivo-comportamentais. A próxima edição do Seminário ocorrerá em março de 2022.

Quer ter acesso a mais conteúdos gratuitos sobre Terapias Cognitivas como este? Inscreva-se no III Simpósio Internacional da ALAPCCO

 

Editoria de Psicologia

Editora-chefe: Carmem Beatriz Neufeld.

Psicóloga. Livre docente em TCC pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP. Pós-Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora e Mestra em Psicologia pela PUCRS. Fundadora e Coordenadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC-USP. Professora Associada do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – USP. Presidente da Federação Latino Americana de Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais - ALAPCCO (2019-2022). Presidente-fundadora da Associação de Ensino e Supervisão Baseados em Evidências - AESBE (2020-2023). Bolsista Produtividade do CNPq.

 

Referências:

Leahy, R. L. (2019). A cura do ciúme: aprenda a confiar, supere a possessividade e salve seu relacionamento. Artmed.

Leahy, R. L. (2021). Não acredite em tudo o que você sente: identifique seus esquemas emocionais e liberte-se da ansiedade e da depressão. Artmed.

McClure, J. M.; Friedberg, R. D.; Thordarson,  M. A. & Keller, M. (2021). TCC expressa: técnicas de 15 minutos para crianças e adolescentes. Artmed.

Wenzel, A. (2018). Inovações em terapia cognitivo-comportamental: intervenções estratégicas para uma prática criativa. Artmed.

 

whatsApp_image